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Alfabetização de crianças das classes populares em São Gonçalo: construindo caminhos no diálogo escola básica-universidade

Por Luana Valeriano , Por Mairce Araujo , Por Rose Mary Magdallena
Magisterio
02/05/2019 - 11:15
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Foto de Pixabay
O artigo objetiva intercambiar experiências sobre a prática alfabetizadora. Buscando entrelaçar práticas de pesquisa e de formação, tendo a escola como centralidade (Canário, 2005), desenvolvemos ações investigativas em parceria com as professoras da escola básica. Aqui enfocamos a experiência vivida no Projeto “Planetário Móvel. As propostas de Freinet e as concepções de Freire foram a base de nossa reflexão. Nas trilhas percorridas pela investigação o diálogo escola-universidade tem nos permitido (re)inventar caminhos para a construção de uma alfabetização potente e significativa para crianças e adultos.
Palavras chave: aula-passeio, práticas alfabetizadoras, cotidiano escolar
Este artículo tiene como objetivo compartir experiencias sobre la alfabetización práctica. Buscando entrelazan la investigación y la formación, con la escuela como centralidad (Canarias, 2005), las acciones de investigación desarrolladas en colaboración con los maestros de la escuela primaria. Aquí nos centramos en la experiencia en el proyecto "Mobile Planetario. Las propuestas de Freinet y las concepciones  de Freire son la base de nuestra reflexión. Los senderos recorridos por el diálogo sobre investigación escuela universitaria nos ha permitido (re) inventar maneras de construir una alfabetización poderosa y significativa para los niños y adultos. 
Palabras clave: aula-drive, profesores de alfabetización funcional, rutina escola
CONTEXTO DO RELATO: UMA BREVE APRESENTAÇÃO 
(...) Infeliz educação a que pretende, pela explicação teórica, fazer crer aos indivíduos que podem ter acesso ao conhecimento pelo conhecimento e não pela experiência. Produziria apenas doentes do corpo e do espírito, falsos intelectuais inadaptados, homens incompletos e impotentes. (Freinet) 
Começamos nosso diálogo trazendo um dos princípios da Pedagogia de Freinet, inspiradores de projetos educacionais com as quais nos identificamos: a experiência como caminho de acesso ao conhecimento e de produção de homens completos e potentes. Em nossas trajetórias de formação, como professora em formação inicial, no Curso de Pedagogia, e como professoras em exercício do magistério, uma nos anos iniciais do ensino fundamental e outra no  ensino superior, temos percebido, assim como nos ensinou Freinet, a força de uma proposta pedagógica que rompe com um verbalismo vazio, o acesso ao conhecimento pelo viés da explicação teórica, e investe na construção de projetos coletivos como possibilidade de educação para uma nova humanidade. 
Trazer a reflexão sobre algumas experiências realizadas no processo de formação docente na Faculdade de Formação de Professores da UERJ, vividas a partir da pesquisa apresentada a seguir é um dos propósitos do presente artigo. Nas trilhas percorridas na investigação o enlace escola-universidade tem nos permitido (re)inventar caminhos, tanto para a prática docente, quanto para a prática investigativa em busca de contribuir com a construção de um processo de alfabetização potente e significativo para crianças e adultos. 
Nosso grupo de pesquisa - Alfabetização, Memória e Formação de Professores (ALMEF) – foi criado em 2004 e, no decorrer de sua trajetória, tem buscado colocar em diálogo estudantes de Pedagogia, História, Geografia e professoras em exercício na escola básica. A composição atual do grupo está representada no artigo Mairce Araujo, coordenadora do grupo, Luana Valeriano, estudante de Pedagogia e Rose Mary Magadallena, professora da rede pública municipal de São Gonçalo.
Buscando entrelaçar práticas de pesquisa e de formação, tendo a escola como centralidade dessa formação, a partir de uma perspectiva “centrada na escola” (Canário, 2005) a pesquisa reconhece o cotidiano escolar como espaço de produção do conhecimento, pautando suas ações investigativas no movimento de " conhecer e produzir com" as professoras. Nesse sentido, a pesquisa elege como um de seus objetivos principais: contribuir para a qualificação do trabalho pedagógico nas escolas da rede pública de São Gonçalo, interferindo e atuando na formação inicial e continuada do/as professores(as) alfabetizadores(as) a partir do movimento de ação-reflexão-ação.
No recorte da pesquisa contemplado neste artigo, trazemos a experiência do diálogo universidade-escola materializado no projeto desenvolvido com a E M Armando Leão Ferreira que denominamos Planetário Móvel. Para o planejamento e reflexões sobre o processo vivido buscamos apoio em dois educadores caros para nós, especialmente por suas contribuições em relação ao processo de alfabetização: Celestine Freinet e Paulo Freire, conciliando a proposta freinetiana da aula-passeio, com as concepções freireanas de leitura de mundo e leitura da palavra. 
DESCOBRINDO ESTRELAS, (RE)INVENTADO PRÁTICAS NO COTIDIANO ESCOLAR
(...) O moço mostrou estrelas, mostrou a Terra, os planetas e o céu com muita vida. (Estefanie,  E.M. Dr Armando Leão)
Celestine Freneit elaborou ao longo de sua trajetória muitas técnicas pedagógicas que tem como foco estimular a participação do aluno colocando crianças e professores/as numa relação de colaboração contínua. Se em alguns momentos o conteúdo escolar parece desinteressante e sem relação com o mundo, tirar as crianças da escola e colocá-las em contato com o conteúdo vivo contribui para estimular sua curiosidade, seu espírito investigativo além de permitir incorporar no processo ensino-aprendizagem a bagagem que a criança traz consigo e suas experiências fora dos muros da escola.
Transformando tal preocupação em proposta pedagógica, Freinet propõe a aula-passeio:
(...) a aula-passeio nasceu de sua experiência pessoal como professor primário nas primeiras décadas do século XX. Para Freinet, se as crianças viviam interessadas e curiosas no que acontecia do lado de fora dos muros escolares, por que não sair com elas e aproveitar esse interesse para a aprendizagem e a construção de novos conhecimentos? (ARAÚJO, PEREZ, TAVARES, 2006, p. ) 
 Assim, a aula-passeio nos oferecia uma boa oportunidade de incorporar as experiências trazidas pelas crianças ao cotidiano escolar e uma ferramenta valiosa no processo de ensino-aprendizagem. Grandes desafios nos esperavam. Programamos a aula-passeio para acontecer na Faculdade de Formação de Professores o que demandou várias providências: planejar a saída das crianças da escola; pedir autorização para as famílias; resolver a infra-estrutura do passeio, tais como: condução, lanche, dentre outras. No planejamento coletivo com a Escola Municipal Doutor Armando Leão Ferreira enfrentamos todos esses desafios. Denominamos o projeto de Planetário Móvel. 
Viajando no Planetário Móvel...
Vamos para a Lua. Vamos para a Lua Hooooooo. Leva a gente para a Lua. (Rose, E.M. Armando Leão Ferreira )                              
O Planetário Móvel é uma proposta pedagógica elaborada por professores da área de ciências e física, que tem como suporte uma cúpula inflável com 5m de diâmetro e 4,5m de altura, dentro da qual imagens do céu noturno são projetadas e os estudantes são convidados a observar e entender os movimentos celestes, (as constelações, as estrelas, o Sistema Solar, as estações do ano e abordagens sobre Astronomia, entre outros), em uma viagem imaginária percorrendo “o espaço” num foguete, em um movimento interdisciplinar que perpassa abordando assuntos de ciências, história e geografia. As informações selecionadas pelo projeto buscam levar em conta a faixa etária ou escolaridade do público. Após a apresentação dos vídeos é realizada uma pequena oficina com as crianças.  
Com objetivo de preparar as crianças para a viagem no planetário móvel e instigar a  curiosidade infantil em torno da temática produzimos, com o coletivo da escola, nas semanas que antecederam a visita à Faculdade, textos explicativos, maquetes sobre sistema solar, murais com pesquisas, poesias, criamos letras de músicas, dentre outras atividades. Enfim, vivenciamos, estudantes do curso de Pedagogia e professoras da escola, as diversas etapas da elaboração de uma aula-passeio, tal como fora proposta por Freinet: planejamento, desenvolvimento das atividades preparatórias na escola, acompanhar as crianças na viagem dentro da bolha e avaliação após a realização da atividade. A experiência vivida serviu de base para a elaboração de relatórios reflexivos, integrando ao processo de formação a vivencia e experimentação e a reflexão sobre o vivido.
AMPLIANDO A REFFLEXÃO SOBRE O PROCESSO VIVIDO 
       Algumas imagens do trabalho realizado nos ajudam a refletir sobre o processo vivido. 
As crianças expressaram em desenhos ou na escrita o que mais lhes chamou a atenção na experiência. Observar as produções das crianças é uma etapa da aula passeio.  Identificar o que foi mais significativo na experiência para as crianças pode ser tornar ponto de partida para  realização de outras atividades relacionadas ao conteúdo escolar.
Na produção da aluna podemos perceber seu encantamento pela atividade. Pensar sobre as  respostas e as reações das crianças estimula a construção de novas relações ensinoaprendizagem mais significativas, tanto para as crianças como para os  professores.
As crianças foram levadas em grupos num ônibus fretado que fez o deslocamento da escola ate à Faculdade de Formação de Professores e depois das atividades desenvolvidas  retornou com as crianças para a escola. A apresentação na “bolha” foi realizada com grupos de 25 crianças por vez. Após a viagem pela bolha, enquanto aguardavam o retorno para escola, as crianças eram convidadas pelas estudantes do Curso de Pedagogia para participaram de brincadeiras, para desenharem e também para fazerem um passeio pela faculdade. A realização da atividade no hall de entrada da faculdade despertou a curiosidade de estudantes dos demais cursos de licenciatura da instituição.    
A experiência da aula-passeio ia permitindo às professoras, as futuras professoras e às crianças construírem outras relações com os conteúdos pedagógicos, reconhecendo-os como conteúdos vivos, encarnados, conteúdos que ajudam a pensar sobre o mundo, sobre o planeta. Novas relações vão sendo tecidas com as crianças, mas também com a família, que permite que seu filho ou sua filha saiam da escola em companhia das professoras. Por outro lado, favorecendo a cooperação mútua tínhamos uma comunidade escolar que abraçava um grupo de estudantes em formação, um grupo de pesquisa e seus projetos e uma universidade que acolhia e incentivava a experiência. 
Durante todas as etapas da atividade foi possível entrelaçar distintas áreas de conhecimento. As reflexões sobre o processo vivido, realizadas posteriormente com as professoras, nos permitiu pensar sobre a importância de atividades como essas para auxiliar o processo de ensino-aprendizagem, não só no que se refere a leitura e escrita, mas também a apropriação em outras áreas do conhecimento. 
(...) seria desejável que os alfabetizados cientificamente não apenas tivessem facilitada leitura do mundo em que vivem, mas entendessem as necessidades de transformá-lo – e, preferencialmente, transformá-lo em algo melhor. Tenho sido recorrente na defesa da exigência de com a ciência melhorarmos a vida no planeta, e não torná-la mais perigosa, como ocorre, às vezes, com maus usos de algumas tecnologias. (Chassot, 2003, p.94)
Chassot (idem) defende a importância de pensarmos a alfabetização não apenas voltada para o domínio da língua portuguesa. O autor propõe uma alfabetização cientifica, que pense o saber na escola e sua utilização para além dos muros da escola.
Araujo, Perez e Tavares (2006) ao discutirem as possibilidades da aula-passeio a partir do diálogo com Freire também apontam para uma perspectiva mais ampla de alfabetização: 
Fundamentadas em Freire (1986, 1990) vimos defendendo que aprender a ler e a escrever é antes de mais nada aprender a ler o mundo, aprender o contexto, localizar-se no espaço social mais amplo. Entendemos pois, que se na escola, a partir de uma aula-passeio professor@s e crianças pudessem problematizar a cidade, lê-la como um texto, descrevendo-a, narrando-a, escrevendo-a de acordo com os diferentes sentidos negociados em suas observações, uma outra experiência alfabetizadora poderia estar sendo construída. ( p.77)
Ao retornar à sala de aula, após a aula-passeio, as crianças compartilharam as experiências vividas. Trocavam informações sobre os novos espaços conhecidos, tanto os virtuais proporcionados pela viagem espacial na bolha, quanto os vivenciados concretamente no passeio pela faculdade. Relataram oralmente, produziram murais, fizeram exposição das fotos tiradas durante o passeio.
Tais reflexões socializadas no coletivo da escola, envolvendo professoras em formação inicial, as estudantes do curso de Pedagogia e as professoras da escola básica contribuía para fortalecer novas práticas pedagógicas, desvelando caminhos potentes para a (re)invenção da escola...
CONSIDERAÇÕES FINAIS, AINDA QUE PROVISÓRIAS 
Eu gostei muito da bolha. Para mim lá foi incrível e lá parecia que     a gente estava no céu de verdade(..) Estefane E.M. Dr Armando Leão
Revisitando nossas memórias escolares encontramos vários momentos em que passeios e atividade extraclasses estavam presentes. Refletindo sobre essas vivências percebíamos que atividades como essas foram extremamente significativas na construção de nossas leituras de mundo. A apropriação de espaços como museus, bibliotecas, centros culturais marcaram não só nossa formação e como o próprio aproveitamento escolar foi norteado por essas experiências. 
Pesquisas recentes sobre a urbanização brasileira apontam que atualmente 80% da população brasileira vive nas cidades. Milhões de pessoas vivem hoje nas grandes cidades brasileiras, denominadas de megalópoles, como São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, o que torna essas cidades verdadeiros formigueiros humanos. A população de São Gonçalo, cidade lócus de nossa pesquisa, segundo o censo do IBGE possui em 2013, uma população de 1 025 507 habitantes. 
Entendemos que circular pela cidade, ocupar seus espaços culturais, tomando-a como um livro de espaços (ALVAREZ, 1994) pode se constituir como uma prática pedagógica potente da qual a escola não deveria abrir mão. Viver em uma cidade educa e reeduca, e aprender a lê-la é alfabetizar-se para poder transformá-la (ALENCAR, 2002). Um dos dispositivos de leitura da cidade encontra na aula-passeio, proposta por Freneit, inúmeras possibilidades de construção de conhecimentos. 
Uma aula viva e dotada de experiências e significados essa era a proposta de Celestine Freinet nas aulas passeio, promovendo o conhecimento de forma coletiva e contínua. Paulo Freire em seu livro Pedagogia da Autonomia fala sobre o educando como atuante em seu processo. A experiência com a aula-passeio nos permitiu ver/ouvir/sentir além do que conhecíamos sobre as propostas dos dois educadores a partir das leituras. Nos possibilitou igualmente perceber como o processo de alfabetização pode ser ampliado para outras áreas do conhecimento e que este processo é contínuo e não se dá somente nos momentos iniciais de apropriação da leitura e da escrita. 
Enfim, viver a experiência e refletir sobre ela coletivamente, professoras e futuras professoras, trouxe para nós novos elementos para que pudéssemos pensar sobre os caminhos de um processo ensinoaprendizagem transformador e significativo.
Rerencias
Alencar, Chico. Direitos mais humanos. Rio de Janeiro: Garamont 2002.
Álvarez, José Maurício Saldanha. A cidade, livro de espaços. Rio de Janeiro: Revista À margem, n° 4, Fronteiras, 1994.
Araújo, Mairce. Alfabetização, Memória e Formação de Professores. Relatório de pesquisa PIBIC. Rio de Janeiro, UERJ, 2013, mimeo.
____ Morais, Jacqueline Fátima dos Santos. Intercambiando experiências na formação continuada de professore/as a partir de uma perspectiva centrada na escola. VI REDES, Rio de Janeiro, 2011. 
____Pérez, Carmen LV; TAVARES, Maria Tereza G. Caderno d@ professor@ alfabetizador@: oficinas de alfabetização patrimonial e formação de professores. RJ: HP comunicação Editora, 2006.
Canário, Rui. O que é a escola? Um olhar sociológico. Porto, Porto Editora, 2005
Chassot, Attico. Alfabetização científica: uma possibilidade para a inclusão social Revista Brasileira de Educação [On-line] 2003, (Jan-Abr) 
Freinet, Célestin, and J. Batista. Pedagogia do bom senso. M. Fontes, 1985. 
Freire, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática docente. SP: Paz e Terra, 1996. 
____. A Importância do Ato de Ler: em três artigos que se completam. SP: Cortez. 1986
______ .& MACEDO, D. 1990. Alfabetização: leitura do mundo, leitura da palavra. SP: Paz e Terra. 
Josso, Marie Christine. Experiências de vida e formação. Lisboa: Educa, 2002.
Sampaio,  Rosa Maria Whitaker.  Freinet, evolução histórica e atualidades. São Paulo: Scipione, 1989.
Dados para o autor
*Mairce Araujo é Professora Associada da Faculdade de Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Docente do Mestrado em Educação: Processos Formativos e Desigualdades Sociais. Pesquisadora dos Grupos: Vozes da Educação: memória e história das escolas de São Gonçalo e Grupo de Alfabetização das crianças das classes populares. mairce@hotmail.com
**Luana Lopes Valeriano Alves Caetano é graduando do curso de Pedagogia da Faculdade de Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e bolsista de Iniciação cientifica PIBIC/CNPQ no grupo de pesquisa Alfabetização, Memória e Formação de Professores (ALMEF). luanavaleriano.pdg_tlmk@hotmail.com
***Rose Mary Magdallena é Graduada em pedagogia pelo Centro Universitário Augusto Mota, especialista em psicopedagogia pelo Centro Universitário Augusto Mota. Atualmente, professora da Escola básica, Ensino Fundamental na Escola Municipal Doutor Armando Leão Ferreira da Prefeitura Municipal de São Gonçalo. Coordenadora pedagógica da Prefeitura Municipal de São Gonçalo lotada na Escola Municipal Doutor Armando Leão Ferreira. Participa do grupo de Pesquisa Alfabetização, Memória e Formação de Professores (ALMEF), UERJ. triz.magdallena@yahoo.com.br
Foto de Pixabay
 

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