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Formação de Professores. ¿Como a família pode contribuir?

Magisterio
14/08/2019 - 15:30
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Foto de Pixabay

Este artigo apresenta como temática a importância da investigação da formação inicial e da formação continuada de professores na área da Educação. Assim, investigamos como os pais podem contribuir para melhorar a prática e as pesquisas sobre formação de professores. Para isso, desenvolvemos um curso de formação continuada com professores de escolas públicas e estudamos a teoria do EPP. Após, nosso grupo desenvolveu um diálogo com os pais investigando as concepções deles sobre essa teoria. Por fim, a participação da família trouxe para a pesquisa colaborações significativas que não poderiam ser percebidas nem pelos professores nem pelos pesquisadores.

Palavras-chave: Formação de Professores, Investigação, Escola-Família, Pais.

Introdução

Com o aumento da produção científica nas últimas décadas investigando a formação inicial e a formação continuada de professores, o resultado esperado seria que estas tivessem trazido mudanças significativas na prática de sala de aula. No entanto, está claro que o ensino transmissivo ainda é dominante na maioria das escolas. A partir disto, observamos que a investigação acadêmica não está modificando em grande escala a prática tradicional do ensino a partir dos cursos de formação, nem a partir das práticas inovadoras aplicadas por pesquisadores em sala de aula para tentar modificar o ensino transmissivo. 

Com este contexto, nosso grupo de pesquisa aplicou uma teoria inovadora, conhecida como EPP (Educar Pela Pesquisa Em Sala De Aula) em um curso de formação continuada de professores. Após, fizemos uma avaliação desta prática a partir da concepção dos pais. Conforme análise qualitativa, os pais foram atores em potencial para contribuir com a prática do professor e com as pesquisas que tentam modificar a prática transmissiva.

Educar Pela Pesquisa em Sala de Aula (EPP) centra a sua didática na investigação dos alunos a partir de um tema do próprio interesse desses. A teoria é muito estudada por pesquisadores da área da Educação como sendo uma teoria de aprendizagem autônoma, crítica e reflexiva, que se opõem à prática transmissiva. Porém, nestas pesquisas sempre se apresentam as concepções dos investigadores e dos professores que avaliavam a teoria. Assim, buscamos contribuir com estas pesquisas a partir da avaliação dos pais, não excluindo as demais avaliações já analisadas e publicadas, mas ampliando o diálogo acadêmico, estendendo às famílias dos alunos. 

Ainda sobre a teoria do EPP, Galiazzi, Moraes y Ramos (2003) argumentam que esta contribui para melhorar a formação do professor, no entanto, como toda prática inovadora, gera primeiramente um movimento de resistência tácita. Os autores enfatizam que esta reação surge quando o professor percebe que a nova proposta (do EPP - Educar pela pesquisa em sala de aula) é diferente de suas próprias concepções teóricas e práticas. Este processo faz com que o professor faça uma reflexão, uma (auto) análise e após, a compressão da nova proposta de ensino baseado no educar pela pesquisa. Ainda, os autores concluem que este processo enriquecem os conhecimentos profissionais de todos que se envolvem no processo desta teoria. 

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A teoria foi estudada por professores de nove escolas públicas do município de Guaíba juntamente com os pesquisadores da universidade (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS) para posteriormente ser aplicada em sala de aula e avaliada pelos pais dos alunos. 

Quando temos a intenção de incluir os pais em uma investigação e/ou a participação desses na escola, antecipamos que não será uma tarefa fácil, uma vez que o tempo dos pais é limitado. Atualmente, na maioria das famílias, todos os membros trabalham e não há mais tempo para dialogar e ir até a escola. Mesmo assim, apoiado em Braslavsky (1999) que sustenta em suas pesquisas que as instituições educativas: escola, família e sociedade em geral deveriam se comunicar e se conhecer para desenvolver um ensino atual, elaboramos uma estratégia para dialogar com os pais dos alunos e avaliar a partir desses sujeitos a teoria do EPP. 

A Investigação 

O desenvolvimento desta pesquisa foi realizado no âmbito de um estudo de caso que envolveu um grupo de professores de Ciências que atuam em nove escolas públicas municipais de Ensino Fundamental de Guaíba, cidade situada na região metropolitana da capital do estado do Rio Grande do Sul, Porto Alegre. Estes professores se inscreveram para participar do projeto de pesquisa TRACES - Transformative Research Activities. Cultural Diversities and Education in Science (www.traces-project.eu) a partir de um edital elaborado pela Secretaria Municipal de Educação. O edital convidava professores de ciências para participar de um curso de formação de professores na universidade (PUCRS) para planejamento coletivo de ações em sala de aula baseadas no “Educar pela Pesquisa” (EPP) de Moraes & Lima (2002). 

Este estudo de caso foi escolhido para analisar como a formação teórico-prática do EPP, desenvolvida em uma perspectiva colaborativa e dialógica entre universidade e escola poderia melhorar as práticas de sala de aula. Porém, neste artigo, iremos apresentar apenas os resultados de como os pais dos alunos avaliaram esta prática e como estes atores poderiam contribuir com a formação do professor. 

As escolas onde estes professores lecionam estão localizadas no perímetro urbano e na zona rural do município de Guaíba (RS), onde vivem cerca de 95.230 habitantes. As escolas estão situadas principalmente em bairros populares (classe baixa). Os alunos em todas as escolas são em sua maioria de pele clara. Como em quase toda a área do estado do Rio Grande do Sul, a descendência predominante é de imigrantes portugueses, alemães e italianos.

As ações de campo do estudo de caso foram realizadas durante seis meses do ano de 2011 e o Educar pela Pesquisa (EPP) foi a teoria utilizada no curso de formação dos professores. Para isso as seguintes atividades forma realizadas:

  • Estudando a metodologia do EPP: Os professores foram até a universidade (PUCRS) estudar juntamente com os pesquisadores sobre a teoria do Educar Pela Pesquisa (EPP).
  • Aplicando a teoria em sala de aula: Após os estudos realizados na universidade, os professores foram desenvolver a teoria em sala de aula. Para isso, o professor selecionava um tema e os alunos, em grupo, selecionavam o que eles gostariam de pesquisar sobre aquele tema. Por exemplo: Uma professora trabalhou com o tema: “Corpo Humano e Saúde”, dentro desse assunto os alunos escolheram o que lhes interessava investigar. Após a escolha do tema de interesse, os alunos realizaram pesquisas teóricas e transcreveram os resultados em um texto sintetizando o que foi investigado. Depois elaboraram cartazes e apresentaram para os colegas. Receberam críticas e ideias dos demais alunos e reelaboraram os trabalhos. Estas são as etapas da teoria do EPP.
  • Exposição dos trabalhos no Museu de Ciências e Tecnologia da PUCRS: Os alunos, após terem reelaborado seus trabalhos em sala de aula, apresentaram suas produções em uma exposição no Museu de Ciências e Tecnologias da PUCRS. Os alunos também conheceram os trabalhos das demais escolas e tiveram a oportunidade de interagir e aprender com o trabalho dos outros grupos. 
  • Exposição dos trabalhos para os pais: Para concluir, alunos, professores, pais e pesquisadores se reuniram na Secretaria Municipal de Guaíba para que os alunos apresentassem seus trabalhos para seus pais. Nesta etapa, os pais puderam avaliar a metodologia do EPP a partir de entrevista em grupo focal. No entanto, por falta de tempo, apenas alguns pais foram entrevistados.
  • Aplicação de um questionário aos pais: Complementando a última etapa, um questionário foi elaborado para que os demais pais pudessem também avaliar a metodologia. Foram enviados sessenta questionários. Quarenta e quatro foram respondidos. Destes, vinte e cinco foram preenchidos por mães, quinze por pais e quatro por outros membros da família. 

Dialogando com as famílias...

Nas duas últimas etapas do estudo de caso (etapa 4 e 5) foi o momento de dialogarmos com os país. No momento (4), os pais foram entrevistados a partir do método de grupo focal. Para Westphal, Bógus y Faria (1996), a técnica do grupo focal permite pensar coletivamente sobre um tema que é parte da vida das pessoas reunidas. Esta técnica pode ser combinada com outras técnicas. Assim, utilizamos um questionário para ampliar a amostra, conforme descrito no ítem (5).

O grupo focal realizado com os pais e o questionário continham as mesmas questões. Perguntamos se os pais estavam sabendo sobre as pesquisas que seus filhos desenvolveram em sala de aula e se sabiam qual o tema eles haviam pesquisado. Também perguntamos se os pais participaram de alguma maneira desta atividade.

Os pais responderam que indiretamente participaram da investigação em casa com seus filhos e que sabiam o tema que eles pesquisaram, pois os alunos compartilharam suas descobertas, os alunos também convidaram seus pais para ajudar a elaborar o material para ser apresentado no Museu de Ciências e Tecnologia da PUCRS.

Percebemos, que longe dos olhos dos professores e dos investigadores, os estudantes contaram para os seus pais o que eles mais gostaram durante toda a atividade do EPP. Os alunos comentaram gostaram de visitar o Museu de Ciências e Tecnologia da Universidade (PUCRS), e de comunicar para o público sobre a pesquisa que eles realizaram. 
Meu filho me falou que o que ele mais gostou foi poder expor o seu trabalho no Museu e mostrar a sua pesquisa para as pessoas (Pai 6).
Para mina filha acredito que o que ela mais gostou foi apresentar o trabalho no Museu (Pai 25). 

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Os dados da pesquisa mostraram que os alunos (filhos) contam para os seus pais os aspectos mais relevantes que acontecem na escola. Os pais revelaram que muitas atividades não são compartilhadas em casa, apenas as que os alunos realmente se envolvem e demonstram interesse. A partir disto, podemos concluir que os alunos compartilham suas vivencias e emoções com suas famílias. 

Os pais também identificaram que a partir do EPP, o que mais chamou atenção de seus filhos foi o fato de eles poderem ter autonomia de escolher o tema para pesquisar, e não investigar o que a professora teria interesse. Os pais também consideraram esta proposta interessante.
Percebi em meu filho que a atividade do EPP fez ele estudar sem a professora obrigar (Pai 24).
A atividade permitiu que a minha filha escolhesse um tema que ela estava interessada em pesquisar (Pai 25).

Por fim, os pais também nos contaram que a atividade do EPP, gerou muita motivação em seus filhos. Segundo os sujeitos, os alunos chegavam em casa querendo pesquisar mais, não só sobre o tema que estavam investigado em aula como demais temas, inclusive sobre conteúdos de outras disciplinas. Assim, concluímos que o EPP motiva os alunos a investigar por conta própria.

Formação de Professores: ¿Como a família pode contribuir? 

Segundo Lopes (2006) a influencia dos pais pode ser uma poderosa maneira de melhorar os serviços, as pesquisas e a qualidade do Ensino. Este autor afirma que quando há uma participação mais ativa dos pais, a escola pode ter melhorias significativas. Esta questão também fez parte das perguntas de nossa pesquisa: “Como os pais se sentiram avaliando e participando de uma atividade da escola”. Alguns relatos demonstraram a satisfação dos pais em serem escutados:
Em minha opinião, a participação dos pais é interessante em todas as áreas. A escola deveria chamar mais os pais para conversar e para trabalharem juntos (Pai 29).
Nós, os pais, poderíamos sugerir novos conteúdos e ideias para melhorar o Ensino (Pai 32).
Achei a proposta interessante, os alunos ficaram mais animados com a participação dos pais (Pai 38).
Acredito que foi muito importante. Assim podemos compartilhar mais com o que eles fazem na escola. Com a participação dos pais percebi que se ganha muito, inclusive o respeito entre pais, alunos e professores (Pai 42).

Em alguns depoimentos, identificamos a afirmativa dos pais de que eles conhecem mais os seus filhos (os alunos), do que os seus professores e os pesquisadores e, portanto, eles sugeriram que deveriam ser mais escutados, pois acreditam que poderiam ajudar a melhorar a Educação. 

A partir desta pesquisa, nossa equipe passou acreditar que é possível incluir os pais nas pesquisas acadêmicas. Assim, sugerimos que se façam experiências inovadoras nos cursos de formação inicial e formação continuada de professores e que estas experiências possam ser avaliadas com a participação da família. Com isso, acreditamos a partir desta pesquisa que será possível que professores, pesquisadores e a família contrastem suas ideias e desenvolvam um ensino mais reflexivo.

Para concluir, acreditamos que esta pesquisa é apenas uma interpretação para poder contribuir com as pesquisas sobre formação de professores. Pois, este é um tema que necessita estar sempre sendo investigado pela sua relevância e complexidade. 

Referencias
Braslavsky, C. (1999). Bases, orientaciones y criterios para el diseño de programas de formación de profesores. Revista Iberoamericana de Educación, 19(1), pp. 1-28.

Galiazzi, M., Moraes, R. & Ramos, M. (2003). Educar pela pesquisa: as resistências sinalizando o processo de profissionalização de professores. Educar em revista, 23(1), pp. 1-15.

Moraes, R. & Lima, V. (2004). Pesquisa em sala de aula: tendência para educação em novos tempos. Porto Alegre: EDIPUCRS.

Lopes, A. C. (2002). Os Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio e a submissão ao mundo produtivo: o caso do conceito de contextualização. Educação e Sociedade, 80(23), pp. 76-104.

Westphal, M. F., Bógus, C. M. & Faria, M. M. (1996). Grupos focais: experiências precursoras em programas educativos em saúde no Brasil. Boletín de la Oficina Sanitaria Panamericana, 120(1), pp. 472-482.

Nota

1 TRACES - É uma pesquisa internacional que investigou o distanciamento entre as investigações científicas em Educação e a transposição das mesmas na sala de aula. Esta pesquisa teve apoio financeiro e parceria com a Comissão Científica Europeia no âmbito do projeto FP7 – SCIENCE – IN – SOCIETY (n° 2009-1-244898). 

Gabriela Delord é formada em Biologia, especialista em Educação Ambiental, mestre em Educação em Ciências e Matemática e doutoranda do mesmo curso pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Participou como pesquisadora e colaboradora da pesquisa TRACES¹ investigando a formação docente e a participação da família neste contexto. gabriela.delord@acad.pucrs.br

João Harres é professor e coordenador do curso de formação de professores em Física pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Professor do curso de doutorado em Educação em Ciências e Matemática da mesma universidade. Foi coordenador da pesquisa TRACES no Brasil e há anos investiga e publica sobre formação de professores. joao.harres@pucrs.br

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